Sabemos que música é uma arte abstrata. Sua matéria prima é o som e seu objeto final é uma organização complexa do mesmo. Sabemos também que o som não é algo físico que podemos visualizar ou tocar e justamente por isso, é sempre um desafio descrevê-lo. Neste texto, gostaria de falar um pouco sobre a arte de organizar os sons, sobre três processos que são imprescindíveis na realização musical e por fim sobre o sentido disso tudo.

Criação musical

Para compreendermos o que leva alguém, em muitos casos, investir uma vida inteira de dedicação à música, precisamos primeiro tentar definir o que é música. Tarefa difícil. Segundo a maioria dos tratados e métodos de teoria musical, a definição de música se limita a “Arte de combinar os sons segundo as leis da estética” Pois é… Mas que lei? Que estética? O que é estética? E por aí podemos seguir elaborando perguntas na tentativa de se chegar a algum lugar. Como este texto não tem a menor pretensão de ser uma exposição conclusiva ou cientifica em buscas de verdades ou de refutações, sigo sem medo propondo só mais uma reflexão e cutucada sobre mais um assunto que considero interessante para os amantes da música.

De onde surge então essa necessidade e a motivação de organizar os sons? Já parou para pensar nisso? Só essa pergunta já daria um livro.  Então vou deixar essa pulga atrás da sua orelha ok? Continuando: Sem levar em conta tais motivações podemos dizer que a criação musical perpassa por diversos processos internos e externos. Pode ser através de uma série de procedimentos técnicos, práticos e teóricos adquiridos em anos de dedicação e estudo, ou também de maneira empírica com pouco conhecimento formal, mas com a utilização de uma sensibilidade intuitiva, que está ligada diretamente à musicalidade do autor. Os desdobramentos deste processo podem ser inúmeros. O fato é que, independente da maneira que ocorra, é devido a este impulso de criação que temos hoje a nossa disposição uma infinidade de obras musicais. Agora, o que faz com que uma obra musical permaneça por séculos e não seja esquecida?  Acredito que principalmente, sua qualidade, beleza, profundidade, relação histórica e social seguido da possibilidade de seu registro, seja este de forma escrita ou gravada.

Interpretar

Na questão da permanência viva de uma obra musical, gostaria de ir um pouco além. Embora controverso a diversas correntes de pensamento, que firmam a tradicional necessidade da fidelidade absoluta da reprodução de uma obra musical, entendo que a interpretação é um ato de recriação, onde o intérprete através de um desenvolvimento de aplicação técnica se torna coautor da obra, logicamente, coerente ao seu significado original.

Existem ainda, fatores importantes que precisam ser levados em consideração, tais como: realidade social, histórica, estética, ideológica e entre outras, contrastante entre intérprete e compositor, o que impossibilita a reconstrução legítima e original de uma obra. Mas é justamente nessa limitação que está a beleza da coisa. O próprio significado da palavra interpretação não pressupõe cópia, mas sim entendimento individual de quem interpreta, deixando livre, espaços para ser preenchido pela assimilação própria. É através do estudo técnico e da pesquisa que o intérprete capta a intenção do autor e funde com sua interpretação tornando-se, assim, participante direto da existência daquela obra. Mesmo com o objetivo de pesquisa ou na tentativa de reproduzir uma música histórica para chegar às peculiaridades musicais de uma época, sempre existirá uma relação subjetiva entre o interprete e o autor. Interpretar é então recriar. Coisa linda se olhada dessa forma não é?

Ouvir

Voltando ao tema inicial, uma definição simples que poderíamos dar para música seria: “música pode ser qualquer tipo de som organizado com o objetivo de ser ouvido e apreciado”. A partir dessa definição é possível entender que o sentido da criação e da recriação musical só se torna completo com o ato da escuta e da apreciação. O que seria do som sem o ouvido? A música é um ato em que criamos um tipo de relação com outras pessoas, ainda que de forma inconsciente. Ao ouvir uma melodia, seja através de uma gravação ou uma apresentação ao vivo, estamos estabelecendo uma conexão com os autores em dois processos: o de criação e o de recriação ou interpretação.  Essa conexão nos comunica, ainda que através de séculos, com diversas informações a respeito desses autores, além de proporcionar prazer, emoção, sensações e lembranças, pois sabemos também que a música marca etapas da vida humana. Ouvir e apreciar são o que dá sentido ao ato de criar e de recriar a música.

Refletindo um pouco sobre o processo da existência musical, podemos pensar também no significado da nossa própria existência. O som, talvez existisse independente da presença humana, mas a música, para existir deve passar por esses três processos que são profundamente humanos. O sentido da criação seja esse em qualquer processo artístico, está na verdade diretamente ligado à afirmação da existência. Como é bom descobrir o belo e poder criar, recriar ou simplesmente apreciar algo que em seu objetivo final não esteja a necessidade implícita de sobrevivência, como é, por exemplo, toda a nossa produção de trabalho. A música, enquanto produção artística expande o sentido da atividade e da vida humana e cabe a cada um de nós encontrar seu próprio significado.

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mateusbustamante

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