Esta é uma pergunta que pode ter inúmeras respostas, pois existe uma infinidade de elementos nas entrelinhas que devemos levar em consideração. Quem acompanha as minhas publicações, seja por vídeo ou texto, já percebeu que eu não gosto muito de respostas prontas e de promessas milagrosas. Prefiro o caminho da reflexão e da análise. Se tratando de prática musical, este gosto se reforça ainda mais. Todo aprendizado musical demanda tempo e compromisso, não existe nenhum caminho fácil. Neste artigo, espero contribuir para uma reflexão mais profunda sobre o tema.

Autoanálise e autoconhecimento são fundamentais para quem quer estudar sozinho

Com o advento do famoso marketing digital e de conteúdo, é possível encontrar resposta para tudo na internet! É impressionante como existem respostas milagrosas para qualquer tipo de questão, e sempre com as mesmas promessas tentadoras:

“15 passos para…”.

“Descubra como ser tornar um mestre em…”.

“Como fazer isso e conseguir aquilo…”.

“O segredo para…”.

Não posso negar que em alguns casos encontramos conteúdos de valor, mas a questão que está por trás disso — justamente este o ponto que me preocupa — é que as promessas de resultados nunca levam em consideração a individualidade. O processo de aprendizado não ocorre de maneira idêntica com todos. Por isso insisto sempre que uma análise crítica e individual, e a consciência de si mesmo, são de extrema importância para quem deseja estudar música e violão de forma autônoma. Principalmente no caso de estudos práticos de violão, pois por trás dessa prática existe um processo complexo de aplicação, que faz com que a informação aos poucos se torne conhecimento. O estudante precisa reconhecer suas dificuldades, seus limites e principalmente ter bem definido seu objetivo.

Em breve escreverei um post apresentando uma forma de organizar os estudos com base na minha própria experiência.

O aprendizado, independente da área, pode ocorrer com acompanhamento de um professor ou através de um estudo autogerido. Independente disso, o processo de amadurecimento musical é longo, e demanda anos de contato com a música e com o instrumento. Seja para a profissionalização ou não, o passo mais importante para o estudante de violão é uma profunda tomada de consciência. Desenvolvendo o autoconhecimento, é possível organizar melhor as ideias e reconhecer as limitações. Dessa forma o processo de estudo se torna muito mais claro, evitando perdas de tempos desnecessários, e acredite, mesmo com um professor, pode-se gastar muito tempo e esforço e ainda assim aprender pouco.

Minha experiência me ensinou que vale muito a pena gastar o tempo que for necessário refletindo, analisando, questionando e se conhecendo, pois, cada minuto investido nisso, economizará muitas horas de esforços no futuro.

 

Sobre autodidatismo

Existem casos de grandes violonistas que possuem em sua trajetória uma relação estreita com o autodidatismo, como é o caso de Egberto Gismonti. No entanto ele já era músico quando passou estudar o instrumento e já era compositor, pianista e havia estudado orquestração e composição na Europa. Uma coisa que pode ajudar você a refletir sobre o assunto e criar uma opinião sólida, é conhecer um pouco a história de grandes violonistas que tiveram em sua formação experiência com o aprendizado autodidata.

Abaixo separei três nomes importantes do violão brasileiro:

Américo Jacomino (Canhoto)

Aprendeu sozinho e escondido de seu pai. Por ser canhoto tocava com o violão invertido, mas sem inverter as cordas, ou seja, como os bordões em baixo e com as primas em cima. Isso ocorreu por não ter aprendido com um professor e foi um marco para sua carreira.

 

Paulo Porto Alegre

Em um ambiente extremamente musical, iniciou no piano aos sete anos de idade, e entre os 10 e 18 tornou-se autodidata no violão, estudando em paralelo matérias teóricas e de composição. Só aos 18 anos passou então a ter aulas de violão clássico.

 

Geraldo Ribeiro

Nascido no sertão da Bahia, próximo à parte norte da Chapada Diamantina, este era um garoto prodígio. Iniciou-se na música de maneira autodidata, através de métodos de viola caipira.

 

Embora muitos se considerem autodidata, eu gostaria de expor a minha interpretação sobre este termo.

O conceito de autodidatismo é um pouco controverso, pois ninguém ensina a si mesmo. Aprendemos através da observação, associação e da reprodução, e para que isso seja possível é necessário sempre o contato com o outro. Então é difícil afirmar que alguém aprende sozinho.

Veja a definição de autodidata no dicionário:

  1. Pessoa que se instrui por si própria
  2. Mestre de si mesmo

O Aprendizado ocorre pela observação do mundo em volta e pela investigação, seja por livros, vídeos ou contato direto com pessoas que possam oferecer novas informações. Talvez a expressão “dono de si mesmo”, seja mais apropriada do que “mestre de si mesmo”. Ela se encaixa melhor no sentido da capacidade de se autogerir.

Acredito que o estudo sozinho passa por um caráter de organização e de objetivo pessoal. Estudar sozinho não quer dizer aprender sozinho de forma milagrosa, mas sim organizar seu próprio caminho de aprendizado sendo responsável pelas etapas, escolhas e decisões tomadas. Temos a nossa disposição centenas de milhares de vídeos gratuitos ou pagos e acesso irrestrito a uma quantia imensurável de informação. Conseguir filtrar, desenvolvê-la e transformá-la em conhecimento é o maior desafio de quem quer estudar sozinho.

Então, não defino autodidatismo como uma maneira mágica e milagrosa de aprendizado, mas sim como um ato individual de esforço pessoal e uma capacidade de observação e organização, para transformar informação em conhecimento sem o direcionamento e a instrução de um professor.

Minha experiência como autodidata no violão

Definido o significado de autodidatismo como uma forma de aprendizado exploratório e autogerido, posso considerar que em longas etapas na minha vida eu fui um autodidata. Comecei a tocar sozinho aos 13 anos, observando um tio que tocava violão, como não tinha condições de pagar por aulas, me arrisquei a estudar violão sozinho, com amigos e com o auxílio de revistinhas de cifras. Com 16 anos já tocava na igreja, tive contato com pessoas que também tocavam o que me possibilitou vivenciar um período importante de troca de informações. Isso foi fundamental para os meus primeiros anos de estudo de música e violão.

Até os 19 anos tentei fazer aulas particulares, mas por falta de recursos não consegui dar continuidade. Com o tempo percebi que as poucas aulas que fiz me ajudaram a organizar tudo o que aprendi desde o início dos meus estudos musicais. Nestes anos de adolescência, colecionava os materiais de estudo que conseguia com amigos, parentes e também na internet. Eu me lembro de sair montando escalas por conta própria, de ter compreendido a formação dos acordes e sua relação com a escala através de leituras de métodos e de experimentações, até chegar ao ponto de sozinho, escrever o campo harmônico de todos os tons. Quanto às questões técnicas, minhas próprias limitações me levavam a questionar quais seriam meus possíveis erros. Eu sempre pedia dicas para um violonista mais velho que tocava em um outro grupo na igreja. O que me ajudou muito a desenvolver questões técnicas, como por exemplo a postura das mãos e do instrumento no corpo, foi assistir inúmeros video-aulas. Dessa forma, através da observação aprendi a questionar os meus limites, identificar e corrigir os erros.

Depois de muito conflito interno para decidir o que eu faria da minha vida, fui para a universidade e estudei, por pouco menos de um ano, com um grande guitarrista de Jazz, Djalma Lima. Por falta de condições, não pude continuar a graduação, mas fui ter aulas com o violonista Conrado Paulino por aproximadamente seis meses. Estudei com bastante gente sim, violonistas e músicos de outras áreas, mas sempre em curtos períodos de tempo por falta de recursos.

Nos últimos anos, me formei em música através de uma graduação online, o que me exigiu um esforço pessoal na gestão do meu próprio estudo. Na faculdade tive pouco contato com o ensino prático de instrumento, já que o curso era voltado para a pedagogia de ensino, por isso continuei estudando o instrumento de forma autônoma.

Considero que o meu processo de aprendizado de violão e de música aconteceu de forma mesclada, tive professores que foram fundamentais, mas a maior parte do meu desenvolvimento ocorreu através de um estudo autônomo. Um exemplo marcante que reforça isso foram as 3 aulas que fiz com o violonista Camilo Carrara, que ampliaram, de forma significativa, minha visão em relação a inúmeras questões musicais.

Percebo hoje que embora estivesse na maior parte do tempo estudando sozinho eu realmente aprendi explorando, questionando e observando.

Perfis, tempos e necessidades

Outro fator importante e que deve ser considerado é o perfil de cada individuo. Tem pessoas que necessitam de um acompanhamento mais intenso do que outras, pessoas que possuem medo de arriscar, que não aceitam errar, outras que gostam de se aventurar, de experimentar, preferem descobrir as coisas explorando, sentem um prazer maior na observação e na troca colaborativa e coletiva. Não que uma maneira seja melhor ou ideal, isso depende de incontáveis fatores e de condições relacionados à individualidade de cada pessoa.

As condições externas influenciam muito. Às vezes por falta de professor, por falta de dinheiro ou por outros motivos não é possível um estudo formal e contínuo. Tais limitações podem gerar uma busca individualizada pelo aprendizado. No entanto, um bom resultado depende do perfil de cada pessoa e como ela reage aos obstáculos.

Sabemos que ninguém nasce pronto. As pessoas são formadas e se modificam dia após dia, através de uma somatória de acontecimentos, reações e interações. Por isso continuo insistindo em buscar a consciência dos fatos para fazer as escolhas. Um estudante de violão pode ser: uma criança com grande potencial artístico, um jovem que quer se engajar em seu meio social, um jovem que quer se profissionalizar e traçar uma carreira musical, um adulto apaixonado por música que quer ocupar seu tempo livre com algo que lhe dá prazer, um profissional de qualquer área que deseja construir uma carreira paralela atuando como professor de música ou alguém com qualquer outro objetivo. Ainda assim, para cada possibilidade de objetivo teremos um choque direto com os tipos de personalidades, o que influencia muito nas escolhas, nos processos e nos resultados. Ter consciência e olhar de maneira abrangente para si e para a conjuntura, possibilita assumir de forma natural as consequências do seu próprio processo de aprendizado. Seja com um professor, sozinho ou intercalando entre as duas formas de estudo, o importante é estar sempre em busca da consciência do seu perfil, do seu tempo e de suas necessidades.

 

A importância do caminho de estudo

Tenho certeza absoluta que o meu processo de estudo definiu onde me encontro hoje. Quando era mais jovem, queria ser músico e com muito esforço me tornei um. Sonhava em tocar nos palcos, viajar, e ser reconhecido, tudo o que um jovem estudante de música deseja. No entanto, num determinado momento percebi que não tinha tanto perfil para isso. Não escolhi seguir uma carreira de concertista e de violonista solo, justamente pelo preço que se paga. Com certeza é uma opção linda, corajosa e que necessita de muita orientação. Talvez se eu tivesse tido um professor que me preparasse por anos, eu tivesse adquirido tal perfil. Isso não ocorreu e meu caminho foi traçado de forma diferente. Experimentei por dois anos uma vivência intensa nos palcos e realmente não me adaptei. Por isso, hoje entendo que o processo de estudo tem um papel e um peso fundamental na determinação dos resultados futuros.

Mesmo no caso de estudantes amadores, o caminho de estudo é fundamental. Independente dos objetivos, a atividade musical pode ter extrema importância na vida de uma pessoa. O nível de seriedade nos estudos depende de cada um. Como amador ou como profissional, quem escolhe estudar música se depara com a realidade do estudo teórico e prático e com uma necessidade constante de dedicação. Conheço pessoas que levam o estudo musical muito a sério e que não trabalham com música. Ser um músico, um violonista ou um artista, nem sempre é sinônimo de profissão. A música ocupa um lugar importantíssimo na nossa vida, e independente de ser um ofício profissional, pode e deve ser levada muito a sério.

Tenha definido para você: que lugar a música ocupa na sua vida? Qual a importância para você tocar violão? Respondido isso, você poderá se comprometer com seus estudos e passar a traçar seu próprio caminho de evolução.

Sem preconceito

Como você deve ter percebido, minha formação foi uma grande mistura entre estudos autogeridos e estudos de curto período com diversos professores. Não experimentei estudar por um longo período com um professor, então não posso falar muito sobre isso. Acredito, que existem inúmeros fatores em estudar sozinho que podem ser vistos como vantagens e outros inúmeros como desvantagens, e o mesmo ocorre estudando com um professor. Talvez mesclar e experimentar um pouco dessas duas maneiras seja um caminho interessante. O estudo acompanhado e continuo te exige disciplina enquanto o estudo exploratório desenvolve a liberdade e a criatividade. Ambos são elementos importantes para quem quer estudar música.

Por fim, o mais importante é não ter preconceitos e não achar que as respostas precisam sempre ser binárias, sim ou não, este ou aquele, pior ou melhor. Pesquise sobre os violonistas, músicos e compositores que você gosta. Aquele timbre, aquele fraseado, a forma como a harmonia se desenvolve, a técnica e a sonoridade que tanto te agrada… tente entender como eles chegaram ali e comece a traçar seu próprio caminho.

Espero que abrindo um pouco da minha história, eu tenha contribuído para uma reflexão mais profunda sobre este tema!

Até o próximo artigo!

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mateusbustamante

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