Nesta primeira parte do texto gostaria de falar um pouco sobre música e improvisação. Será uma breve introdução sobre o assunto, e no final deixarei um link com o primeiro vídeo da Série Improvisos que estou lançando no Youtube. Sempre que possível irei lançar um improviso novo, e posteriormente irei analisar os casos para abrirmos uma série de discussões sobre o assunto. Em breve postarei o segundo texto aprofundando mais o tema.

Música Fluxo e interação

Se você toca algum instrumento, canta ou se simplesmente adora música já deve ter ouvido falar sobre improvisos musicais. Aquele momento em que um instrumentista cria um solo “do nada”, baseando-se em informações contidas na música que está ocorrendo no momento. Quando falamos sobre improvisação em música entramos em um assunto bastante extenso e que pode ser abordado de diversas óticas. Nesse texto quero abordar esse assunto de forma bem simples e superficial, minha intenção não é fazer nenhum estudo científico sobre improviso, mas sim levantar algumas reflexões sobre as principais questões que estão em torno desse assunto.

Grosso modo, improvisar nada mais é do que compor uma música instantaneamente, sem chance de correções ou de mudanças. A música é um fenômeno que existe no ato de sua execução, fora isso ele é uma memória, uma ideia registrada, um arquivo de áudio que aguarda pela sua existência (experiência). Deste ponto de vista, a música pode ser interpretada como um fluxo de ideias (musicais) expressada através do fenômeno acústico e que exige a interação entre indivíduos conscientes, geralmente um compositor, um interprete e um ou diversos ouvintes. Muitas vezes essas ideias podem se divergir, se completar ou até mesmo se unir de acordo com o sentido dado por cada ator (compositor, interprete ou ouvinte) no momento de sua experiência musical.

Registros de memória

A música enquanto expressão de uma ideia pode existir por diversos processos. Todo ser humano é um ser musical e pode fazer música, aliás, fazemos música a todo tempo, por exemplo, quando assoviamos uma melodia que mal sabemos de onde vem. Intuitivamente estamos improvisando, fazendo existir música a partir de um ato intuitivo. Isso é improvisar música. De onde será que vem essa música que muitas vezes nos pegamos fazendo? Vem de diversos registro que desde nossa infância ficaram armazenados em nossa memória. Olhando dessa forma, percebe-se que não precisa sequer ser um músico profissional ou um instrumentista qualificado para improvisar uma música.

 A forma como interpretamos os sons: estruturas e sistemas

Já parou para pensar que mesmo para quem não sabe nada sobre música – digo nada mesmo, teoria ou prática – de alguma forma a música faz sentido! Refiro-me o sentido que a música possui quanto ao seu reconhecimento na memória. Ao ouvir uma escala musical ou um trecho melódico, qualquer pessoa consegue reconhecer e associar alguns padrões sonoros com outros fatos, sejam esse de memórias antigas, pessoas ou até mesmo culturas. Ao ouvirmos determinadas melodias, fazemos rapidamente associações à regiões e culturas do mundo. Isso acontece porque toda música que ouvimos está organizada dentro de estruturas e de sistemas composicionais.

A humanidade criou, organizou ou descobriu essas estruturas e sistemas para organizar os sons e fazer música. Eles são inúmeros e suas evoluções ou transformações ocorreram junto com o desenvolvimento humano desde a pré-história. Posso citar alguns desses sistemas: modalismo, dodecafonismo, minimalismo e o tonalismo, que são apenas alguns entre muitos. Pra nós ocidentais, o tonalismo tornou-se o sistema mais utilizado e por isso é tão enraizado em nossa memória, lógico que com suas exceções, dependendo de regiões geográficas e de questões culturais.

No caso da improvisação são justamente esses sistemas que fornecem ordem e estrutura para a organização da criação musical. Isso se reflete incondicionalmente na maneira como ouvimos e sentimos os sons musicais. Quando você escuta um solo de blues, instantaneamente vai saber que aquilo é um blues, o mesmo exemplo serve para a música nordestina, ou um solo de uma música oriental ou do oriente médio.

A improvisação dá “voz” ao interprete (instrumentista)

A improvisação é na verdade um discurso musical do interprete dentro de uma obra. Se pensarmos, por exemplo, que dentro de um tema de jazz, de choro ou de qualquer outro estilo, abre-se um espaço para o instrumentista se expressar, temos então um momento de integração total entre compositor, interprete e ouvintes. Diferente de um arranjo todo acabado e fechado, onde o papel do instrumentista se limita a executar o que já foi previamente decidido – o que por si só já não é tarefa fácil dependendo do arranjo – a improvisação dá voz ao interprete. Sinceramente gosto muito dessa ideia.

Na segunda parte do texto vamos aprofundar um pouco no tema improvisação.


O vídeo acima é de uma improvisação da minha autoria. Por se tratar de uma música improvisada, dificilmente eu conseguiria tocá-la novamente da mesma forma exata como foi gravada. Nesta ocasião eu gravei primeiro uma base harmônica com os acordes – tudo decidido exatamente na hora – e depois gravei os solos. Espero que tem curtido.

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mateusbustamante

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